Real Irmandade de NSSSS

Património

Património

A Capela primitiva foi edificada no início do século XVI, junto à antiga muralha Fernandina, por iniciativa dos artilheiros da guarnição do Castelo de São Jorge, após uma epidemia que afetou Lisboa. Em ação de graças, pelo facto daquela epidemia não ter atingido a guarnição do Castelo, os militares dedicaram a ermida à devoção do santo mártir São Sebastião (também militar romano), proclamado patrono de Roma pelo Papa Gregório Magno, devido a uma epidemia que afetou Roma na antiguidade.

A Irmandade dos artilheiros foi ganhando importância e, em 1596, a ermida passou a Igreja paroquial de São Sebastião, ano em que sofreu algumas obras da autoria do arquiteto Teodósio de Frias (1555-1634), que foi o arquiteto do Rei Filipe II em Portugal.

Século XVII

Em 1661, após o desentendimento entre os responsáveis do Colégio dos Meninos Órfãos e da Irmandade de Nossa Senhora da Saúde, tal situação levou os artilheiros da guarnição de Lisboa a oferecerem a ermida de São Sebastião para receber a imagem de Nossa Senhora da Saúde e, desde essa data, a ermida passou a designar-se de Nossa Senhora da Saúde e de São Sebastião. A Irmandade da Senhora da Saúde, criada em 1570, tinha a sua sede no Colégio dos Meninos Órfãos e foi nesse ano que se realizou, pela primeira vez, a procissão de Nossa Senhora da Saúde, a qual é atualmente a mais antiga da cidade de Lisboa (em 20 de abril de 1570).

As duas irmandades (São Sebastião e Nossa Senhora da Saúde) juntaram-se numa mesma Irmandade, através da aprovação do Papa Alexandre VII, nascendo assim Irmandade de Nossa Senhora da Saúde e de São Sebastião, tendo sido colocada, em 20 de Abril de 1662, a imagem da Senhora da Saúde no altar-mor da Capela.

Em dezembro de 1670, foi contratado o mestre marceneiro Manuel Fernandes Valadão para a construção do retábulo e tribuna da capela.

Século XVIII

Em 1705 a irmandade contratou o arquiteto João Antunes para remodelar a capela. Foi nesta fase que foi construída a atual fachada em estilo barroco, com o portal barroco de linguagem erudita, com aletas, símbolo da arquitectura religiosa barroca.

João Antunes (1643-1712) foi um arquiteto da Corte Portuguesa, considerado um dos mais importantes do período barroco em Portugal.
A sua principal obra foi a Igreja de Santa Engrácia (iniciada 1682), em Lisboa, sendo de destacar, também em Lisboa, a Igreja do Menino Deus (1711-1737) e a sacristia do Hospital de São José, antigo Convento e Colégio de Santo Antão-o-Novo. Outro trabalho notável foi o túmulo da Princesa Joana no Mosteiro de Jesus, atual Museu de Aveiro.

A planta da Capela apresenta uma nave única, coberta por abóbada estucada e ornamentada com pintura, à qual se justapõem a capela-mor e a sacristia.

O terramoto de 1755 não provocou danos graves na Capela, mas depois da catástrofe foi reconstruído o frontão da fachada, de estrutura simples, integrando uma pedra com as iniciais A.M. coroadas, que significam Ave Maria. No frontão de lanços, sobre a janela que o encima, ficou o brasão de armas português, repetido no interior sobre o arco triunfal.

Foi também reconstruída a capela-mor, coberta por abóbada de aresta e totalmente revestida de talha dourada rococó polícromada, com trono ao centro, onde está a imagem da padroeira. O tecto simples tem uma pintura ornamental sobre estuque figurando ao centro o monograma mariano.

Foi também depois do terramoto que nas paredes laterais da nave da Capela foi criado o silhar de azulejo azul e branco com figurações bíblicas, da autoria do mestre António de Oliveira Bernardes (1662-1732). Bernardes foi um pintor em tela e em azulejo, nascido no Alentejo, sendo um dos mestres da produção do azulejo em Portugal que deixou diversos trabalhos em Estremoz, Évora, Portalegre, Lisboa, Braga, Barcelos, Ponta Delgada e Cascais. No painel de azulejos da Capela são representadas várias figuras do Antigo Testamento, identificadas nas respetivas legendas (NAAS/ABRAÃO/AMINA/SALOMÃO/TARE/ISAAC).

A capela-mor ostenta uma esmerada decoração em talha dourada e pintada, de feição rococó, particularmente no seu retábulo, formado por colunas salomónicas e, um pouco recuadas, colunas caneladas, que sustentam o frontão ornado de anjos e a cúpula do camarim oval onde surge o trono eucarístico e, à frente, a venerada imagem da padroeira, de roca e vestidos. É ainda digna de referência a antiquíssima imagem de Nossa Senhora da Graça, guardada em maquineta (estrutura em madeira tipo oratório), que tinha sido mandada colocar pelo rei D. Fernando I num nicho, numa porta da Cerca que recebeu o seu nome.

Século XIX

Depois da época conturbada das invasões francesas e dos conflitos internos resultantes da revolução liberal, a Irmandade voltou a ter a proteção dos monarcas, da nobreza, das elites militares e de alguns beneméritos.

Em 1861, o Rei D. Pedro V elevou a ermida à dignidade de Capela Real e nos anos seguintes foram realizadas novas obras, com a abertura de dois altares laterais:  no retábulo do lado do Evangelho (altar lateral esquerdo) ficou a imagem de Nossa Senhora da Piedade, ali colocada em 1861, depois de ser retirada  de um nicho que existia na Rua dos Cavaleiros. Neste altar existe uma lápide testemunhando que a iniciativa de criação deste altar, em 1864, foi de António Florêncio de Sousa Pinto (1818-1890).

Sousa Pinto era oficial de Artilharia, foi General Diretor Geral de Artilharia, Ministro da Guerra e Ajudante de Campo dos reis D. Fernando e D. Luís e Par do Reino. Foi escritor, fundador  da Revista Militar e do Grémio Literário, Presidente da Sociedade Histórica da Independência de Portugal e presidente da Sociedade Portuguesa da Cruz Vermelha. 

No altar do lado da epístola (altar lateral direito), ficou a imagem do Senhor Jesus dos Aflitos. Sobre a mísula do lado da epístola do arco triunfal está a imagem de Santo António. De destacar o portal seiscentista, retábulo de Brás de Almeida e as pinturas de António Machado Sapeiro.

                

Foi também nesta época que a capela recebeu algumas das mais notáveis peças do seu espólio de mantos e vestidos oferecidos em rogo ou acção de graças, como o vestido de casamento de D. Maria Ana de Áustria com D. João V, um oferecido por D. Miguel e ainda outro doado por D. Maria II.

Em 1875 foi construída a torre sineira, cuja obra foi por F. Joaquim Barbosa, patrocinada pelos irmãos beneméritos: Marquês da Fronteira, coronel António Florêncio de Sousa Pinto e Quintino Costa (tesoureiro da Irmandade).

Século XX

No final do século XX (entre 1988 e 1991) merece destaque a pavimentação em calçada portuguesa na rua da Mouraria, com a projeção de duas fachadas da capela por Eduardo Nery (1938-2013). No início do século XXI foram restaurados os painéis de azulejos (2004), a capela sofreu obras de reforço da sua estrutura e foram restauradas as pinturas do tecto e dos altares laterais.

Desde 1996 que a Capela de Nossa Senhora da Saúde é considerada “Imóvel de interesse público” da cidade de Lisboa (Decreto n.º 2/96, de 06 de março).

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