O cérebro é um músculo…

A velhice constitui um período de grandes mudanças a nível biológico, psicológico e social, bem como no plano das relações com o exterior. Estas mudanças exigem ao idoso um esforço de adaptação às novas condições de vida, tratando-se de um momento de risco para o equilíbrio e bem-estar psicológico.

Os psicogerontólogos defendem que a velhice se vive primeiro que tudo no corpo, com o aparecimento dos cabelos brancos, as rugas, as dificuldades de visão e audição, a lentidão dos reflexos, entre outras[1]. Estas transformações significam um desafio para quem envelhece: a aceitação de um novo eu. Com a possível perda da autonomia funcional, outro desafio é colocado: o ficar dependente.

O envelhecimento pode ser conceptualmente distinguido em normal, patológico e ótimo. O envelhecimento normal é um estado sem ocorrência de patologias biológicas e mentais; o envelhecimento patológico pode ser caracterizado pela degenerescência associada a doenças crónicas, a doenças e síndromas típicos da velhice e à desorganização biológica; e o envelhecimento ótimo é um estado ideal, em que as capacidades biológicas e psicológicas permitem uma adaptação pessoal e social muito satisfatória.

O envelhecimento ótimo representa uma maior qualidade de saúde, pois, o indivíduo procura melhorar ativamente o seu desempenho[2], não devendo corresponder a uma tentativa de imitação da juventude.

Envelhecer com sucesso trata-se de uma capacidade global de adaptação às perdas que ocorrem habitualmente na velhice e de uma escolha de determinados estilos de vida, que proporcionem a manutenção a integridade física e mental. Fatores biológicos, como o papel da saúde, da alimentação e exercício físico, os aspetos biológicos e genéticos; fatores psicológicos, como o funcionamento mental, estratégias de coping, mecanismos de defesa, a personalidade do sujeito; e fatores sociais, como fatores históricos, efeitos da coorte, relações sociais, o contexto social, o suporte social, os recursos económicos, culturais e educacionais, têm um papel determinante no envelhecimento[3].

            Quando existe uma perda, podemos compensá-la através de ajudas externas, como um calendário, e de ajudas internas, que aparecem sobre a forma de treino cognitivo. A estimulação cognitiva ajuda a prevenir a perda de capacidades e a otimizar outras. O efeito é acumulativo. Algumas perdas, que não tenham por base uma demência, podem ser compensadas através de estimulação e prática. Temos mais desenvolvidas as habilidades que praticamos mais, assim sendo, a perda de capacidades deve-se, em parte, à falta de uso.

No envelhecimento, seja normal ou patológico, os indivíduos beneficiam sempre de uma estimulação cognitiva.

As pessoas de idade têm uma grande capacidade de reserva que permite compensar a diminuição de algumas habilidades, nunca esquecendo que o cérebro é um músculo, logo necessita de exercício. De seguida apresenta-se algumas atividades simples, que promovem o treino cognitivo:

           

  • Operações aritméticas (resolver contas de cabeça);
  • Sopa de letras e palavras-cruzadas;
  • Realizar tarefas com a mão não dominante (p.e.: se é destro, lavar os dentes com a mão esquerda);
  • Quebra-cabeças.

 

O funcionamento cognitivo do idoso está relacionado com a sua saúde e com o seu bem-estar psicológico, sendo considerado um indício importante de envelhecimento saudável e de longevidade.

A estimulação cognitiva é realizada através de programas de reabilitação neuro-cognitiva como os jogos e outras atividades interativas que exercem grande importância na colaboração com a área da saúde mental. Os jogos têm duas variantes: a aprendizagem ou a reaprendizagem e proporcionam simultaneamente uma terapia aliciante para os utentes, em especial na população idosa. O propósito dos jogos, aplicados à reabilitação é, auxiliar na reabilitação das funções cognitivas afetadas, que terão resultado de lesões ou doenças, consagrando o aumento da funcionalidade e melhoria da qualidade de vida.

A estimulação cognitiva tem consequências muito positivas no desempenho cognitivo dos idosos, tendo até causado melhorias nos sintomas depressivos. Isto comprova que, a deterioração das capacidades cognitivas, tão comum na terceira idade, pode afinal ser reversível, desde que, corretamente estimulado. A maioria das atividades de estimulação, deverá ser de caracter lúdico, com o objetivo de trabalhar diversas áreas: física, cognitiva e social. Isto porque, apesar da estimulação ser cognitiva, acaba a ter efeitos nas diversas áreas da vida do individuo.

Cada vez mais idosos estão a ser institucionalizados. Isto, apesar de causar alguns problemas iniciais no utente, tem vários fatores positivos: um melhor acompanhamento do seu estado de saúde e funcional, a
prestação de cuidados imediatos, a assistência nas atividades de vida diária e o suporte social, uma vez que a integração numa instituição tende a favorecer as oportunidades de interação do idoso.

Nas instituições, o idoso merece ter espaço para expor o seu talento e criatividade, em atividades que sejam do seu interesse. Esta participação em atividades prazerosas, estimula os vários fatores psicomotores, o que impactua positivamente o seu dia-a-dia.

Para facilitar a integração do idoso no lar, os técnicos possuem um papel fulcral na promoção da qualidade de vida dos utentes. Os psicólogos, psicomotricistas, animadores socioculturais e sociólogos motivam os idosos para a realização de atividades, de modo a que se mantenham ativos, reduzindo o grau de imobilidade e monotonia na vida diária.

A psicomotricidade, a nível geriátrico, também tem revelado imensos benefícios na prevenção e no tratamento de uma série de doenças e incapacidades associadas ao envelhecimento, tais como disfunções psicomotoras, problemas de circulação, artrites e artroses, para além de diversas doenças emocionais, como a depressão.

Para proporcionar o aumento da qualidade de vida, objetivo principal dos lares, é fundamental que, as atividades se relacionem com a estimulação cognitiva e com o movimento corporal, para que haja um maior ganho nos processos de autonomia e de sentimentos de felicidade entre os utentes.

[1] Envelhecer em Portugal, Maria Eugénia Duarte Silva, 2005.

[2] Envelhecer em Portugal, Maria Eugénia Duarte Silva, 2005.

[3] Envelhecer em Portugal, A. M. Fonseca, 2005.

Por Joana Coimbra e Sofia Borges (Psicóloga e estagiária de Psicomotricidade da Fundação Lar de Cegos)

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