“Estou só, mas não me sinto só.”

Como espécie humana somos seres sociais, logo sociáveis. Recorremos aos afetos para satisfazer tensões e dividir angústias… mas de repente vimo-nos barrados deste hábito, deste confronto físico no nosso dia a dia.

E foi então aí que tivemos que aprender a estar sós e desfrutar disso mesmo, o estar só. Então porque não aprendemos a estar a sós e desfrutar disso de vez em quando?! De facto, quem não “sabe” estar só, precisa encarar com frequência a dura tarefa de preencher espaços, curar medos e aliviar inseguranças da pior forma, como por exemplo rodeando-se de pessoas doentias e que não cumprem o seu propósito de “amigos”.

A imposição do afastamento físico é um martírio frente a tantas incertezas. O isolamento social ou a quarentena podem ter efeitos psicológicos importantes, caso esse isolamento signifique solidão. Podem parecer a mesma coisa, mas estar só não significa necessariamente sentir-se só. Poderá isto parecer um contrassenso, no entanto definir solidão é complexo e subjetivo, até porque julgamos a solidão como a ausência de interação com outros.

Num estudo publicado sobre os afetos, foi mostrado que o toque humano afetivo, tocar as mãos dos outros por exemplo, tem um efeito positivo perante um cenário negativo. Ser tocado por alguém de quem gostemos, ajuda a diminuir a perceção negativa de situações negativas.

A solidão durante a quarentena parece ser mais uma opção do que uma imposição. Infelizmente, não para todos, mas vários grupos são mais vulneráveis nesse momento e carecem de maior acompanhamento. O uso de meios tecnológicos para atendimentos médicos à distância, reverteram um pouco os quadros depressivos. Mas os efeitos da solidão também podem agravar outros aspetos além da saúde mental, como o sistema imunológico e cardiovascular.

Estar isolado e não receber contacto de outros tem muita influência nas necessidades básicas como a autoestima, o significado de existência, a noção de pertença e de controle.

Somos seres de hábitos e, como tal, habituamo-nos tão depressa ao que nos faz bem como o inverso. As nossas vidas não giram em torno dos nossos desejos, como possamos acreditar, elas giram em torno dos nossos hábitos, por exemplo: as horas a que nos levantamos, as horas que vamos para o trabalho, as horas em que comemos… e nesta repetição dia após dia. Portanto, devemos começar a olhar e prestar atenção aos nossos hábitos, já que quanto mais focados estivermos neles, mais dificuldades teremos em contrariá-los.

Ora, confrontados com um distanciamento físico obrigatório, o estar só e não se sentir só pode parecer coisa pouca. Mas não é!

Na realidade todos estes meses que temos vivido esta experiência de estarmos fechados dentro daquele espaço que é para nós a nossa “fortaleza”, poderá ter-nos tornado mais fechados ou mais isolados do mundo, mas ter-nos-á certamente tornado mais próximos de nós, já que passámos a viver mais tempo connosco, pois “quem não consegue viver consigo mesmo, dificilmente consegue viver com os outros”.

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